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Artigo

O debate que precisamos enfrentar

Publicado: 20 Novembro, 2018 - 00h00

“Querer-se livre é também querer livres os outros” (Simone de Beauvoir)

 

            Passado o segundo turno das eleições gerais em nosso país, ainda é audível o burburinho que até poucas semanas atrás era ensurdecedor. Precisamos aproveitar a Ágora aberta, por mais cindida que esteja, mas não sem antes revisar nossa postura dentro dessa arena. Para isso, duas tarefas são centrais: examinar nossos próprios erros e aprender com os dos outros. A arrogância diletante da esquerda faz aqui com que tenhamos de revisitar A República, de Platão.

 

            Em sua saga filosófica em busca do modelo ideal de governante, Platão repudiava a ideia de ser governado pelo mais votado, pois para ele nem sempre aquele com mais votos é o mais preparado, o mais probo ou o mais competente. Nesta busca, o filósofo nos ensina que há três fontes distintas para o comportamento humano: o desejo, a emoção e o conhecimento. Eles fluem do baixo-ventre, do coração e da cabeça, respectivamente. Em um bom governante, ou em qualquer pessoa mais evoluída, essas fontes estariam em equilíbrio, sendo controladas pela razão, proveniente do conhecimento oriundo da cabeça. Entretanto, quanto menos desenvolvida uma sociedade, mais fácil será de encontrar pessoas que se deixam dirigir pelo desejo ou pela emoção.

           

Outra lição importante, antes de retornarmos à nossa Ágora atual, é perceber que aquele era um espaço dominado pelos sofistas, homens sem compromisso com a verdade (isto é, sem reflexão sobre as consequências de suas ações para construção do bem comum) que utilizavam da retórica (discursos de fácil assimilação) para convencer outros sobre seu ponto de vista. Estes eram aqueles que viviam atrás do melhor argumento para vencer qualquer debate. Isso te lembra alguma coisa? Pois é, precisamos ter isso em mente para não cometermos esse erro. Nossa arma contra a retórica é a boa e velha dialética. Argumento e contra-argumento capazes de fazer evoluir a visão de mundo (e de si próprios) dos interlocutores em um debate.

 

            Aprender com nossos erros neste momento significa abrir mão de nossas certezas. Costumamos rir da afirmação socrática de que “só sei que nada sei”, contudo é hora de nos apegarmos a isso e tomarmos conta de nossa própria ignorância. “Não se enche copo cheio”, já dizia minha avó. As certezas às quais nos agarramos no último período são a principal fonte de nossa arrogância. “As jornadas de junho de 2013 foram capitaneadas pela direita”, “o projeto vencedor nas urnas em 2014 será implantado”, “não vai ter golpe”, “não vão condenar e prender o Lula”, “a candidatura de Lula não será impedida”, “Bolsonaro não passa de um balão de ensaio”, Bolsonaro é o melhor adversário de qualquer candidato no segundo turno”. A realidade tem contrariado as nossas certezas, e não é de hoje.

 

            Não obstante, refletir sobre nossos erros também passa por inferir corretamente a fonte de nossas certezas expressas acima. Parte de nossa autocrítica deve, sim, ser voltada ao papel protagonista exercido pelo PT e seus movimentos dentro da esquerda nacional. E, pasmem, essa é uma não apenas dos petistas, mas de toda a esquerda. Quer o PT, tão e simplesmente por seu tamanho, manter a qualquer custo um protagonismo desprovido de qualquer autocrítica? Quer o restante da esquerda se valer do movimento conservador que nutre o antipetismo no seio de nossa sociedade para descolar-se do PT buscando criar um novo polo no espectro político nacional?

           

Aqui é momento em que, para auxiliar a busca pelas respostas de nossos dilemas, precisamos aprender com os erros dos outros, em especial com os erros da direita brasileira. Não podemos ignorar o fato de que o ódio antipetista foi criado e nutrido pelos grandes oligopólios de comunicação do país, pilares de sustentação da direita liberal tupiniquim. Entretanto, a queda do PT (construída passo a passo a cada capa da Veja e em cada “boa noite” do Jornal Nacional) não resultou na ascensão do PSDB, pelo contrário, este foi o que saiu mais derrotado das urnas, sendo substituído por uma direita ultra-conservadora beligerante, racista, misógina e lgbtfóbica. Esse é um erro alheio que a esquerda não pode repetir. Lutar contra o antipetismo não é uma tarefa exclusiva do PT, é de todos e cada um de nós que, minimamente, nos identificamos dentro desse campo progressista. Aqui cabe uma ressalva, não há contradição alguma entre enfrentar o antipetismo e cobrar do PT a autocrítica pelos seus erros.

 

            Voltemos ao baixo-ventre. Há uma outra lição valiosa que precisamos aprender com nossos adversários. Vamos revisitar o comportamento daqueles que, movidos pelo desejo de vingança após a derrota de Aécio Neves nas eleições de 2014, serviram para formar a base social de apoio que levou um deputado inexpressivo, de um partido desconhecido, ao posto de Presidente da República.  Quem não se lembra dos adesivos e xingamentos misóginos contra Dilma Roussef? “Dilmanta” “vaca”, “cadela”, “presidanta”, entre outros, eram usados por aqueles que, remidos em sua própria lógica, usavam camisetas com o dizer “a culpa não é minha, eu votei no Aécio”. Enquanto do lado de cá, propalávamos o respeito aos 54 milhões de votos de uma presidenta legitimamente eleita e injustamente impedida. Diante de uma postura depreciativa e visceral o que prosperou no debate público nacional, a retórica ou a dialética? Portanto, se queremos construir um resultado diferente do anterior, não nos servirá de nada o autoindulgente “eu avisei”, nem tampouco consciências serão despertadas a partir das alcunhas de “Bozo”, “Bozonazi”, “Boçalnazi”, “Coiso”, entre muitas outras. O governo do presidente eleito Jair Messias Bolsonaro deverá ser enfrentado dialeticamente em suas próprias contradições. Lembre-se do que nos ensinou Dumbledore: “o medo do nome da coisa só aumenta o medo da coisa em si”.

 

            Não podemos reproduzir o discurso do ódio, por mais santa que julguemos ser nossa ira. Basta olhar para nossa oposição para saber exatamente o que não devemos fazer. A democracia pressupõe a divergência. Temos uma chance ímpar de mostrar que não somos a outra face de uma mesma moeda, mostrar que temos outro projeto de sociedade, movido por outros valores, como a coletividade e o bem comum. É tempo de reiniciar nossa infindável marcha rumo à utopia de Galeano.

 

            O fascismo se combate com democracia, por mais defeitos que ela possa ter. “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”, nos lembra Winston Churchill. Não é hora de esvaziarmos a Ágora que nunca esteve tão cheia. Não é hora de ganhar os debates, muito menos de ter razão. Nossa tarefa agora é mostrar o caminho do baixo-ventre até o coração e, de lá, até a cabeça, para que o comportamento das pessoas seja cada vez mais dirigido pelo conhecimento e menos pelos desejos. Vamos triunfar? Não sei dizer, porém como disse Jigaro Kano: “quem teme perder, já está vencido”.