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Gastos pessoais de Beto Richa teriam sido pagos com propina, segundo ex-diretor da Secretaria da Educação

Em proposta de delação, Maurício Fanini também afirma que recursos públicos teriam sido utilizados para campanhas do tucano

Publicado: 11 Junho, 2018 - 08h43

Escrito por: Gibran Mendes

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O ex-diretor da Secretaria Estadual da Educação do Paraná, Maurício Fanini, teria sido o intermediário de repasses de propinas que serviriam para o pagamento de gastos pessoais e de campanha do ex-governador, Beto Richa (PSDB). As afirmações constam na proposta de delação apresentada por Fanini ao Ministério Público. O documento, divulgado pela RPC, contudo, ainda não teria sido homologado pela ausência de acordo entre as partes.

Fanini, que já foi preso duas vezes, é acusado de desvio de recursos públicos para construção e reformas de escolas estaduais. A investigação é da Operação Quadro Negro e a estimativa é que R$ 20 milhões deixaram o erário, entre 2011 e 2015, segundo o Ministério Público, para abastecer o caixa de Beto Richa, tendo o ex-diretor como intermediário.

Os valores teriam sido arrecadados entre 2002 e 2015 auxiliando nas campanhas de Richa para a Prefeitura de Curitiba, além da eleição e reeleição para o Governo do Paraná. Segundo a reportagem da RPC, os recursos também seriam destinados para seus familiares, seja para campanhas políticas ou gastos pessoais. Uma das afirmações de Fanini dá conta de que um apartamento para Marcello Richa, filho do ex-governador, teria sido comprado a partir dos recursos desviados dos cofres públicos.

Segundo Fanini o esquema teria começado ainda em 2001, quando Richa era vice-prefeito de Curitiba. O ex-diretor da Secretaria da Educação, naquele momento, ocupava cargo na secretaria de obras do município. Após um curto período afastado do ex-governador, por conta da insuficiência de recursos arrecadados diante da necessidade de pagamento dívidas da campanha, ele teria retornado a arrecadar já pensando na reeleição de Richa à prefeitura de Curitiba, em 2004.

De acordo com a investigação, os valores eram desviados por meio de aditivos e outras manobras contratuais com empreiteiras, sobretudo a Valor, considerada peça-chave na Operação Quadro Negro.

Mágoa – A reportagem ainda traz uma passagem curiosa. Segundo a proposta de delação, Maurício Fanini teria se sentido “escanteado” após as primeiras denúncias dos desvios de verbas públicas. Tanto o ex-governador, quanto o então secretário de comunicação e considerado um dos homens fortes de Richa, Deonilson Roldo, teriam se afastado do ex-diretor.

Em uma das passagens, Fanini diz que ao chegar no Palácio das Araucárias, para conversar com Richa sobre as denúncias encontrou o então governador apagando registros que mostrassem a proximidade entre ambos, como fotografias e mensagens do seu telefone celular. Ele teria recomendado a Fanini que fizesse o mesmo.

Parlamento – Na Assembleia Legislativa do Paraná a oposição, tenta, há tempos a instalação de uma CPI para apurar os supostos crimes investigados pela Operação Quadro Negro. A coleta de assinaturas para a criação da comissão, que começou em setembro do ano passado, contudo, ainda não atingiu o número de 18 parlamentares necessários para que a abertura da CPI.

O dono da construtora Valor, uma das principais peças do quebra-cabeça, Eduardo Lopes de Souza, em depoimento ao Ministério Público Federal, citou três representantes do parlamento estadual. Na listão o secretário da Alep, Plauto Miró Guimarães (DEM), o deputado e filho do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Tiago Amaral (PSB) e o próprio presidente da Assembleia Legislativa, Ademar Traiano (PSDB).

O deputado estadual Professor Lemos (PT) cobra celeridade nas investigações. “Mais uma delação sobre o esquema de corrupção instalado no governo do estado. Dinheiro público, da educação, desviado para bancar campanhas eleitorais e viagens. Lamentável. Já são dois anos desde o início da Operação Quadro Negro. Criminosos confessos já explicaram à justiça como operavam os desvios de dinheiro público. Agora, nesta última delação fala-se que o esquema existia desde quando o ex-governador era vice-prefeito de Curitiba. É preciso celeridade”, argumentou.

Segundo ele, a cobrança atinge não somente o poder judiciário, mas também o poder legislativo pela abertura da CPI. “A lentidão da justiça contribui para a impunidade. Aqui na Assembleia já pedimos a abertura de uma CPI para investigar este esquema. Temos 13 assinaturas, precisamos de 18. Seguimos cobrando os deputados. Os culpados pela corrupção precisam ser punidos. A justiça precisa ser ágil e célere para todos”, completou.

O deputado estadual Tadeu Veneri (PT) diz que as denúncias que envolvem Beto Richa surpreendem pela extenção. “São pessoas próximas do ex-governador, familiares, deputados próximos, do seu partido, o PSDB, que dizia que não havia corrupção em seus quadros. Mas também me surpreende que as mesmas pessoas do judiciário que foram rápidas ao julgar o PT, continuam mudas com relação ao Carlos Alberto Richa. São tão falantes quando se trata do Partido dos Trabalhadores e outros próximos, mas agora estão emudecidas. Não sei se por constrangimento ou outro motivo”, enfatizou.

Veneri, contudo, avalia que é preciso ter cuidado com as delações. “É preciso comprová-lás (as delações), caso contrário vira um salvo-conduto para o delator, como aconteceu com o Léo Pinheiro e que na sequência, mesmo que homologado (o acordo), na prática você vê que não tem materialidade nenhuma, como no caso do tríplex em que não aconteceu reforma e tampouco os móveis foram entregues”, disse comparado com a delação do ex-executivo da OAS, que afirmou em uma segunda delação, após a primeira não ter sido homologada, que o Triplex do Guarujá pertencia ao ex-presidente Lula.

Por fim, Veneri vê o Beto Richa fragilizado sem o mandato de governador. “Por pragmatismo as pessoas que sempre estiveram com ele agora se calam. Ontem (terça-feira 5) não teve nenhuma defesa ao governador, para se fazer justiça, apenas o seu ex-líder na Assembleia, Luiz Cláudio Romanelli (PSB), tem feito a sua defesa. Os outros ficam entre calados e apreensivos. As pessoas sabem o que fizeram nos verões passados, é mais ou menos isso”, ironizou.

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