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A CUT-PR, os desafios e a luta contra os retrocessos sociais

Publicado: 08 Fevereiro, 2019 - 00h00 | Última modificação: 08 Fevereiro, 2019 - 10h18

O ano de 2019 é especial para CUT/PR, pois é um ano congressual onde a central precisará olhar sua trajetória passada, organiza lutas e desafios do futuro com um forte olhar no presente, centrada na defesa das conquistas e direitos da classe trabalhadora diante dos ataques cotidianos que têm sido desferidos contra as trabalhadoras e trabalhadores no Brasil e no Paraná.

A central e, principalmente sua corrente majoritária, tem desde o último congresso um acordo político que possibilitou aparar algumas arestas internas importantes para a realização do último conclave estadual. Isso permitiu a organização de uma chapa única que estivesse preparada para os desafios que enfrentamos nesse período de intensa de resistência ao golpe arquitetado desde as manifestações de 2013, as jornada de junho e as eleições de 2014. Golpe este que desferido em agosto 2016 contra uma presidenta que não havia cometido nenhum crime. Desde então sabíamos que pela frente não teríamos tranquilidade e que este período exigiria de nós a máxima dedicação e foco na organização das lutas e na resistência política.

Assim foi. Tivemos um período de quatro anos da gestão de intensa resistência, perseguições e ataques à classe trabalhadora e as suas entidades, assim como aos movimentos sociais, engrossados pela propaganda da mídia marrom que tem lado, apesar de ser concessão pública. O nosso último congresso alterou o período de gestão de três para quatro anos de mandato que finalizaram até meados de julho de 2019, período que foi e continuará sendo de muita organização, luta e resistência aos desafios impostos: A retirada de direitos através da reforma trabalhista, seguidos de transformações na ordem jurídica e nas relações de trabalho rumando para ajeitar somente a vida dos patrões e grandes empresários por um lado. Por outro aviltar direitos históricos das trabalhadoras e trabalhadores através redução drástica por parte do governo ilegítimo golpista de Temer, das políticas públicas, pressão em cima da sociedade para impor uma reforma da previdência, que a forte resistência popular e a proximidade com as eleições gerais conseguiram segurar.

Além disso, um processo severo de judicialização da política fez com que o Brasil fosse entregue às mãos de um “déspota” nada esclarecido que foi eleito fugindo dos debates, com um suposto atentado que até hoje carece de explicações mais claras e da forma mais ilegal de campanha que pode se prever nas regras eleitorais brasileiras que é a utilização de Caixa-2, dinheiro não declarado, não contabilizado oficialmente nas campanhas para inflar as bolhas das redes sociais com fakenews a partir da despolitização e ódio numa política de claro viés fascista, com ênfase em mentiras e na desqualificação de mais baixo nível possível do adversário.  

Mas a nossa resistência possibilitou atrasar por um tempo a implementação do projeto conservador e reacionário que estava se colocando no cenário liberal que passou a dominar a América Latina e a Europa. Uma ofensiva do neoliberalismo traduzida em golpe jurídicos em diversos países como o Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016, contra o ex-presidente Fernando Lugo e contra a presidenta Dilma Rousseff, respectivamente. Esta tendência de judicialização da politica e de Golpes Parlamentares e Institucionais tem sido observada em diversos países do mundo, configurando se como uma nova onda de ofensiva neoliberal.

Porém, é necessário que tenhamos um olhar sociológico sobre os acontecimentos para que possamos nos debruçar sobre eles e diagnosticá-los de forma precisa. Para definir como poderemos enfrentá-los da forma mais organizada possível no campo da democracia e da participação popular. A ofensiva neoliberal ganhou contornos fascistas e um suporte jurídico, constituindo uma intervenção social de novo tipo, diferente de outros processos de exceção que já vivemos no Brasil e em outros lugares do mundo, além do contorno jurídicos também há o suporte de comunicação, baseado em uma comunicação de mão única, que foram as bolhas do Whatsapp e Facebook encomendas a um ideólogo de extrema-direita Steve Bennon, responsável pela ofensiva neofascista em diversos países.

Se estivéssemos num regime sério, onde as leis são para todos, teríamos uma compreensão diferente da justiça eleitoral e da própria justiça comum sobre os acontecimentos dos últimos anos no Brasil. Por exemplo, por que o medo de Lula concorrer novamente a presidência da República? Simples. Por que sabiam que seu legado é de benefícios sociais para a população brasileira, principalmente a que sempre mais precisou de políticas públicas e de um Estado minimamente estruturado para realiza-las, que até as gestões democráticas e populares de Lula e Dilma ainda não haviam tido.

Em todas as sociedades na história sempre houve um poder controlado pelas elites políticas, financeiras, empresariais, industriais e latifundiárias. Elites, estas, que não aceitam que haja igualdade na sociedade. Isso para elas significa menos posses, menos lucros e divisão social mais igual dos espaços públicos. E foram essas elites, no significado mais depreciativo do termo, que não aceitaram que os desvalidos, que foram incluídos por esses governos democráticos e populares tivessem vez e voz. Não aceitaram dividir portos e aeroportos com os que estavam ascendendo a uma condição de vida mais nobre e digna. Não aceitaram continuar a pagar salários descentes e não aceitaram que as filhas e filhos de seus empregados pudessem sonhar com uma ascensão social. Para essas elites era necessário conter o que algumas ricas madames estavam verbalizando nos aeroportos: “Esses aeroporto estão cada vez mais se parecendo grandes rodoviárias!” Esse é o claro sentimento das elites que foi expresso novamente através de um golpe político e institucional, celebrado a partir da frase em uma conversa telefônica: “É preciso conter essa sangria, com o apoio do judiciário com tudo...”, de um dos principais articuladores do golpe de 2016 e um dos artificies do governo ilegítimo e golpista de Temer, Romero Jucá.

A perspectiva de resistência ao golpe institucional e parlamentar foi o que norteou a atuação da CUT no Brasil inteiro e principalmente no Estado Paraná onde a CUT Paraná foi o cerne de toda a resistência política, sendo o local onde se encontrava o centro do furacão golpista em que se desenvolve a Lava Jato. Mas é também o local onde se deu a resistência política e de massas, onde foram realizadas nesse período inúmeras manifestações que fizeram com que a CUT Paraná ocupasse um papel de destaque nesse cenário. Inclusive ajudando a organizar e participando da coordenação da Vigília-Lula Livre, movimento em defesa da Liberdade política do ex-presidente Lula, considerado por inúmeros países, um preso político, pois esta preso sem crime e sem provas!

A Vigília se formou em 07 de abril, após a decretação da prisão arbitrária ex-presidente Lula, e se transformou num movimento sem precedentes na história mundial  e que já resiste mais de 300 dias. É não somente uma resistência, mas um movimento ativo e organizado, com calendário de atividades, organização de visitas ao presidente Lula de personalidades políticas, artísticas e culturais de todos os estados brasileiros e de diversos lugares do mundo. Transformando a vigília numa grande atividade de resistência constante, digna de estar entre os maiores feitos políticos modernos. Ou seja, a Vigília Lula livre é digna de estar no “Guiness Book” o livro dos recordes, como a maior e mais intensa vigília de resistência política, organizada contra as arbitrariedades cometidas contra o maior e mais querido presidente que o Brasil já teve o Presidente Lula. Junto com o povo o ex-presidente Lula segue sendo as maiores vítimas do golpe político e institucional de 2016 que o tirou do lugar que lhe era de direito a disputa da presidência da republica, para que ganhando, o que era atestado por todas as pesquisas de opinião que aconteceria, voltaria a comandar o país rumo a um maior desenvolvimento social e econômico, tendo o como norte os avanços sociais e o fortalecimento das políticas públicas e de inclusão para todo o povo. O golpe além das suas consequências políticas teve também várias consequências para o povo e para a classe trabalhadora.

Como já pincelamos acima, esse será um ano de congresso, em que precisamos preparar nossa central para um período duro de lutas e resistência. Pois a ofensiva do governo de extrema direita que saiu das urnas como consequência direta do golpe e, é um governo que acredita que é difícil ser patrão no Brasil, ou seja, é um governo de classe, mas não é um governo da classe trabalhadora e do povo. Como já demonstrou em suas primeiras medidas, como a extinção do Ministério do Trabalho, indo além ao dizer que a reforma trabalhista que aviltou o direito dos trabalhadores em mais de duzentos itens da Consolidação das Leis do Trabalho, foi uma reforma tímida, mesmo sendo uma reforma a favor do grande empresariado, dos banqueiros e dos patrões. Reforça essa posição atacando e buscando a criminalização dos movimentos sociais dentre eles as entidades de representação das trabalhadoras e trabalhadores que são as centrais sindicais suas federações e seus sindicatos.

E isso nos remete a pensar o Brasil, as relações de trabalho e a organização dos trabalhadores daqui para frente, para que possamos ter uma Central Única dos trabalhadores do Paraná, antenada com as lutas das suas entidades de base. Com vistas voltada sempre a politização da classe trabalhadora para que se organize e fortaleçam seus sindicatos e ajudem a estruturar a luta dos ramos de atividades, com o também fortalecimento das federações e confederações, para que possamos estender cada vez mais a rede de proteção e de organização dos sindicatos a um maior número de trabalhadoras e trabalhadores.

Os desafios no horizonte sindical estão centrados numa acertada leitura sociológica, tanto externa, como interna do que precisamos ter de proposições de lutas que iremos apresentar ao nosso Congresso Estadual para que sejam levadas ao Congresso Nacional da CUT que também acontecerá esse ano. Essas proposições políticas precisam estar calcadas ideologicamente na construção da unidade das trabalhadoras e trabalhadores e no fortalecimento cotidiano de nossas entidades sindicais, as Centrais Sindicais, Confederações, Federações e Sindicatos para que estejamos preparados para resistir aos retrocessos sociais e aos ataques que classe trabalhadora sofre nos dias de hoje. E principalmente para estejamos prontos para os debates que estão colocados na ordem do dia, tanto de resistência como de organização interna.

Somente assim teremos condições reais de resistir politicamente e provocar um debate na sociedade sincero e que aponte saídas para o processo de alienação que vive parcela considerável do povo que sem senso critico e histórico nenhum, segue como gado a horda fascista que se instalou no governo. Mesmo quando seus próprios direitos estão sobre ataque direto. Como exemplo da alteração de política de valorização do salario mínimo que as Centrais Sindicais tinham conquistado um acordo político com o governo Dilma para que o salário mínimo tivesse ganho real até o ano de 2023. E já no Primeiro ano do governo golpista foi interrompido. Com a posse do governo Bolsonaro foi totalmente desfigurada a politica de valorização do salário por um lado e por outro retomou a ofensiva da reforma da Previdência, proposta que pelo que se vê, tem como lógica por fim a previdência como caixa coletiva de proteção social da Classe trabalhadora, propondo que um novo modelo de captação individual, o será muito dificultado pelos reflexos da reforma trabalhista, que passou a permitir o trabalho intermitente, ou seja, as trabalhadoras e trabalhadores que entraram no mercado de trabalho e os que não se encaixem nas regras de transição jamais se aposentarão.

A única forma de combater as mazelas desse governo dos patrões, dos empresários e com a organização e o fortalecimento de nossas entidades, tarefas que estão colocadas para nós da classe trabalhadora nesse importante Congresso da Central Única dos Trabalhadores, tanto na sua etapa estadual, que é o 14º Congresso Estadual da Central Unica dos Trabalhadores do Paraná, a CUT/PR, assim como na etapa nacional que é o 13º Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores, a CUT/Brasil que aconteceram esse ano! Enfim, somente com sindicatos fortes e classistas, que estejam cientes que teremos muitas lutas pela frente. E para esse enfrentamento precisamos estar preparados é que conseguiremos vencer os desafios e barrar os retrocessos sociais que ameaçam a classe trabalhadora como um todo.

Nesse sentido de termos a melhor preparação possível daqueles que estarão como delegados nesses conclaves estadual e nacional é que destacamos a importância de todas as nossas entidades de estarem atentas ao calendário de preparação dos Congressos, para que se garante uma grande participação das trabalhadoras e trabalhares.

 

MARCIO KIELLER

SECRETARIO GERAL DA CUT/PR E MESTRE EM SOCIOLOGIA POLÍTICA PELA UFPR.