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Artigo

Por que a catástrofe do “SAEB Americano” deve servir de alerta para o Brasil

Publicado: 06 Fevereiro, 2026 - 00h00 | Última modificação: 06 Fevereiro, 2026 - 14h16

A divulgação dos resultados do NAEP (National Assessment of Educational Progress), o exame equivalente ao SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) nos EUA, realizado em 2024 e publicado no início de setembro de 2025, passou praticamente despercebida no Brasil, mas trouxe dados alarmantes que servem de alerta. Os resultados do teste confirmam uma sequência de quedas no desempenho dos estudantes estadunidenses em todas as áreas avaliadas, como mostra a Tabela 1. Além disso, os detalhes dos resultados revelam que a queda é mais acentuada entre os alunos de menor desempenho, o que aponta para um aumento da desigualdade educacional. Os dados detalhados também revelam um aumento do hiato de desempenho entre gêneros e grupos raciais. O efeito prático dessas políticas é a concretização de um antigo sonho dos movimentos segregacionistas: a ressegregação educacional, agora não mais por lei explícita, mas através do chamado 'direito de escolha' do ‘livre mercado’.

Tabela 1 – Comparação do desempenho dos estudantes no NAEP em três disciplinas para diferentes anos. Dados do National Center for Education Statistics (NCES), acessados em https://nces.ed.gov/nationsreportcard/.

Matemática

Leitura

Ciências

Ano

Pontuação

Ano

Pontuação

Ano

Pontuação

2024

147

2024

283

2024

150

2019

150

2019

285

2019

154

2015

152

2015

287

2015

154

2005

150

1992

292

2009

150

Reforma Educacional nos EUA

Desde meados dos anos 1950, economistas de escolas de pensamento influentes, como James McGill Buchanan Jr. e Milton Friedman buscavam intervir no sistema educacional estadunidense e de outros países. Estes economistas somaram-se aos grupos de resistência à dessegregação racial nos EUA, determinada em 1955 pela Suprema Corte no caso Brown contra Conselho de Educação, propondo um modelo de educação privada com financiamento público, baseado no "direito de escolha" como alternativa ao que Milton Friedman chamava de "dessegregação forçada".

Na década de 1990, poderosas fundações, como a Friedman Foundation for Educational Choice (EdChoice) e a Charles Koch Foundation, passam a praticar intenso lobby sobre membros dos dois principais partidos dos EUA, os quais inseriram em seus programas ideias da “reforma educacional”, como a privatização, por meio de vouchers (vale-educação) ou escolas charter (no Paraná chamadas de “parceiras”), o homeschooling (educação domiciliar), a desregulamentação e a militarização. Mais recentemente, empresas chamadas de “Big EdTech”, grandes companhias de tecnologias educacionais se juntaram aos reformistas e, paralelamente a uma intensa atividade lobista junto a membros do executivo e legisladores, apresentam para sociedade a educação digital e o ensino remoto como solução mágica para os problemas.

Sob a bandeira da "educação por escolha" (education choice), o sistema educacional dos EUA se voltou gradual, mas consistentemente, rumo à privatização. Nas décadas seguintes, o movimento "education choice" avançou enormemente, apoiado pela promessa de melhores resultados, por grandes investimentos estatais e com o apoio quase unânime do Partido Republicano e de grande parte do Partido Democrata. Atualmente, uma percentagem significativa de estudantes (cerca de 15%), com números ainda crescentes, está fora do sistema público tradicional (Tabela 2).

Crescimento do modelo privatista na educação pública americana, em número de alunos. Dados acessados em https://nces.ed.gov/programs/coe/indicator/cgb.

Ano

Total

Escolas charter

Homeschooling

Voucher

2011

49,7 milhões

2 milhões

1,7 milhões

200 mil

2022

49,6 milhões

3,7 milhões (7,5%)

3,1 milhões (6,2%)

600 mil

As consequências destas políticas têm sido catastróficas para a educação estadunidense, com os índices do NAEP acumulando quedas sucessivas. No início deste século, várias pesquisas acadêmicas já apontavam diversas falhas na reforma educacional, como o livro editado por Saltman & Gabbard em 2003: “Education as enforcement: The militarization and corporatization of schools”, da editora Routledge.

As falhas apontadas incluíam o retorno do segregacionismo, o aumento da desigualdade, práticas coercitivas e abusivas, e o baixo desempenho de estudantes inseridos nesses modelos escolares em comparação com as escolas tradicionais.

Os resultados dessas pesquisas foram ignorados pelos tomadores de decisão, e as reformas avançaram ainda mais. Antes da divulgação dos resultados do último NAEP de 2024, relatórios oficiais já apontavam claramente para o fracasso da reforma. Os dados oficiais de um órgão de auditoria americana (GAO), apresentados na Tabela 3, mostram que o modelo privatista da "educação por escolha" contribuiu de maneira evidente para esse fracasso.

Tabela 3 – Desempenho dos estudantes para diferentes modelos de escola (percentual médio de acertos). Dados de 2022 do U.S. Government Accountability Office (U.S. GAO), obtidos em  https://www.gao.gov/assets/720/718802.pdf

Modelo de Escola

Proficiência em Matemática

Proficiência em Leitura

Todas as escolas públicas

45%

49%

 Escolas “charter” virtuais

21%

41%

Escolas  “charter” físicas

39%

46%

Escolas tradicionais físicas

46%

50%

Outro dado crucial revela a ineficiência do modelo privatista. A Tabela 4, baseada em dados do IES (órgão cuja capacidade de avaliação foi severamente comprometida por cortes de 60% em suas equipes, promovidos pela administração Trump), mostra uma contradição significativa: embora o custo por aluno seja maior nas escolas charter, o gasto médio com salários dos educadores é menor. Isso indica que os recursos adicionais não estão sendo investidos na qualidade do ensino ou na valorização dos profissionais, mas sim direcionados para outras finalidades, como lucro e administração. Consequentemente, esse modelo drena verbas das escolas públicas tradicionais sem, contudo, melhorar os resultados educacionais. Os dados das Tabelas 3 e 4 apontam nitidamente para um triplo prejuízo: baixo desempenho dos alunos, a precarização do mercado de trabalho para os educadores e o subfinanciamento da rede pública.

Tabela 4 – Custo mensal por aluno e gasto com salários por modelo de escola nos EUA, em dólares americanos. Dados de 2018 do Institute of Education Sciences (IES), órgão do governo para pesquisa, avaliação e estatística em educação obtidos em https://ies.ed.gov/learn/blog/public-charter-school-expenditures-school-level.

Tipo de escola

Custo por aluno (USD)

Gasto de salários por aluno (USD)

 

Fundamental 1

Fundamental 2

Médio

Fundamental 1

Fundamental 2

Médio

Tradicionais

6400

6100

6600

5600

5300

5500

Charter

8400

8100

8200

5000

5400

5200

A Militarização produz danos profundos na educação dos EUA

Além da privatização, outro pilar dessa reforma — a militarização — também produz danos profundos na sociedade. Em outubro de 2025, o mesmo GAO mencionado anteriormente publicou um estudo sobre o programa de militarização de escolas nos EUA, conhecido como JROTC (“Junior Reserve Officers’ Training Corps”). O documento foi solicitado pelo Comitê de Supervisão e Reforma da Câmara dos Representantes com base em uma audiência da Subcomissão de Segurança Nacional intitulada “JROTC: Protegendo os cadetes contra abuso sexual e má conduta de instrutores”. Durante essa audiência, foi apresentado um memorando que reportava dezenas de casos de abuso e seus desfechos.

Com base em dados fornecidos por instituições de ensino e pelo Departamento de Defesa, ambos os documentos apontam que os abusos — inclusive os de natureza sexual — nas instituições participantes do programa são “sistêmicos” e “generalizados” ("pervasive" and "widespread"). O uso desses termos contraria diretamente a narrativa do “caso isolado”, frequentemente utilizada pelos defensores do modelo. Os relatórios também indicam falhas crônicas na fiscalização do JROTC. Inúmeros de casos de crimes sexuais e outros abusos cometidos por instrutores militares foram comprovados em investigações, resultando em demissões, prisões e até mesmo suicídios dos agressores, conforme os documentos, os quais podem ser acessados em: https://www.gao.gov/assets/gao-25-107670.pdf e https://oversightdemocrats.house.gov/sites/evo-subsites/democrats-oversight.house.gov/files/2022.11.16%20SUPPLEMENTAL%20MEMO%20for%20the%20NS%20Subc%20Hearing%20on%20JROTC.pdf

O programa estadunidense, que serve de base para a militarização da educação mundialmente, atingiu de maneira particularmente intensa o estado do Paraná. Além disso, a comparação dos modelos mostra que há razões para afirmar que o programa paranaense é ainda mais problemático que o norte-americano.

Em primeiro lugar, as escolas militarizadas do Paraná exigem a participação obrigatória de todos os alunos matriculados, diferentemente do JROTC, cujas atividades são realizadas em contraturno e têm adesão voluntária. Assim, o modelo paranaense assemelha-se a um "recrutamento forçado". Além disso, as escolas brasileiras militarizam crianças a partir do sexto ano, enquanto o programa americano começa apenas no nono ano.

Outra diferença fundamental é a fonte de financiamento: no Brasil, os recursos provêm do orçamento da educação, e não do Departamento de Defesa (também chamado de Departamento da Guerra, pela administração Trump). Em 2024, o programa americano custou US$ 439 milhões aos cofres federais. Já no Paraná, estado cuja população é 28 vezes menor que a dos EUA, foram gastos R$ 56,8 milhões apenas com gratificações em 2024, utilizando verbas do orçamento estadual da educação. Este valor drena, em média, 27 mil reais do orçamento anual de cada uma das 2087 escolas estaduais.

Por fim, no Brasil não há regras claras para inibir assédio e abusos por parte dos instrutores, nem múltiplas instâncias de supervisão e controle do programa – as quais, mesmo nos EUA, se mostram insuficientes para coibir violações sistemáticas. Uma dessas regras do programa americano, por exemplo, exige a presença de uma instrutora do sexo feminino em determinadas atividades.

Diante da escassez de informações oficiais, podemos dimensionar o dano causado pela violência nas escolas militarizadas apenas pelos inúmeros casos de abusos divulgados pela imprensa.

Resistência da sociedade

Essas medidas, no entanto, não foram implementadas sem a resistência da sociedade americana. Entidades sindicais e de direitos civis, organizações sociais, pesquisadores e a própria população estadunidense opuseram-se firmemente à reforma. Um exemplo claro dessa oposição ocorreu durante as eleições de 2022, quando os eleitores dos estados do Colorado, Kentucky e Nebraska foram consultados sobre a ampliação do modelo privatista de educação. O modelo foi rejeitado pela população, como o apoio dos sindicatos, em todos os três estados, inclusive nos dois últimos, onde Trump venceu com margem significativa de votos na eleição presidencial. Ainda assim, o governo de Trump está conduzindo um projeto de federalização e expansão dos programas de “school choice”. Em 2016, a ampliação do limite de escolas charter em Massachusetts foi rejeitado de forma esmagadora pelos eleitores (62%). Não podemos esquecer, ainda, as diversas organizações que se opõem firmemente à reforma educacional nos EUA, como a “The Network for Public Education”, o “The Civil Rights Project” da Universidade da Califórnia e o “National Education Policy Center” da Universidade do Colorado, para citar apenas algumas.

No que se refere à militarização, entidades como a “Youth and Non-Military Opportunities (YANO)” e a “The National Network Opposing the Militarization of Youth (NNOMY)” são exemplos de grupos que se opõem à militarização das escolas e dos jovens nos EUA. Essas organizações já conquistaram diversas vitórias, incluindo a interrupção parcial ou total do programa JROTC em algumas comunidades.

A educação do Paraná no caminho do abismo

O Estado do Paraná, atualmente comandado por um governador presidenciável, segue a passos largos o mesmo caminho que conduz a educação dos EUA ao colapso. Assim como em São Paulo - estado que tem como secretário de educação o arquiteto da atual política educacional no paranaense – o Paraná avança rapidamente na implementação de um modelo privatista, militarista e antidemocrático que, contrariamente à propaganda oficial, está conduzindo a educação pública ao fracasso. As práticas educacionais adotadas por estes e outros estados segue a cartilha da reforma educacional estadunidense e aqui também fruto de lobby de grandes organizações corporativas, como a Fundação Lemann.

Os números dessa guinada são alarmantes: o Paraná conta hoje com 312 escolas militarizadas, 82 escolas terceirizadas e uma vasta oferta de cursos ministrados por organizações privadas (como Unicesumar e Sistema S), além da virtualização de diversas disciplinas. Em todas as escolas, os estudantes passam boa parte do tempo em frente a telas, acessando plataformas educacionais digitais de propriedade de grandes grupos privados (“Big EdTech”) — soluções que custam milhões, drenam recursos de áreas essenciais e minam a qualidade do ensino. Paralelamente, a gestão democrática é sistematicamente desmontada: quando escolas de tempo integral são implementadas (408 atualmente), as eleições para direção são abolidas. Somando-se essas às escolas militarizadas e terceirizadas, as eleições foram extintas em mais de 800 escolas. Este número não para de crescer. Outro dado preocupante é a recente adoção por parte da prefeitura de Curitiba do sistema de vouchers.

Fraude Institucional

As autoridades estaduais não apenas conhecem a gravidade da situação, como têm agido para ocultá-la. Nos dias de estudo e planejamento após o recesso de julho de 2025, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná apresentou aos docentes uma avaliação interna que atestava defasagem de aprendizagem em 60% dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio em Língua Portuguesa; número que chega a 94% em Matemática. Estes resultados apontam claramente o fracasso do modelo educacional implementado pelo governador Ratinho Junior.

Para ocultar esse fracasso, o governo do estado tem adotado medidas condenáveis e contrárias às práticas científicas para inflar artificialmente os resultados nos testes padronizados (PISA e SAEB). Entre elas, estão: exclusão seletiva de estudantes; treinamento intensivo da população-alvo; recompensas por desempenho; estreitamento do currículo; e sobreinvestimento nas turmas que fazem os testes. Muitos destes malfeitos repetem casos ocorridos nos EUA na década passada (veja por exemplo https://nces.ed.gov/pubs2013/2013454.pdf e https://www.npr.org/sections/ed/2014/08/17/340412133/why-the-atlanta-testing-scandal-matters).

Essas práticas, implementadas nas escolas amostradas para o PISA e em turmas alvo do SAEB, constituem uma grave fraude estatística. No caso do PISA, a irregularidade é ainda mais flagrante, pois tais condutas são explicitamente vedadas pelas normas do exame. O objetivo dessas regras é garantir que a amostra seja representativa de toda a população estudantil, segundo os princípios científicos de amostragem. Um índice inflado por meio de fraudes valida políticas educacionais equivocadas, desperdiçando recursos e perpetuando o problema.

Resistência, Denúncia e Alerta Nacional

Diante desse cenário, é essencial que a sociedade paranaense se mobilize para conter a marcha da educação em direção ao abismo. É urgente enfrentar com ações políticas e institucionais as práticas que, ao mesmo tempo que propagandeiam, por meio de uma máquina de desinformação, a educação paranaense como "a melhor educação do Brasil", aniquilam décadas de esforços por uma educação pública, democrática, igualitária e de qualidade. Esta máquina de desinformação extrapola os meios oficiais, sendo reforçada pelos meios de comunicação da família Massa, que atualmente abrangem todo o território nacional. Eles contam também com o apoio ou omissão dos concorrentes, também alinhados com as políticas neoliberais. A validação dessa propaganda por meio de índices fraudados pode fazer com que o modelo paranaense seja erroneamente tomado como referência, espalhando assim políticas desastrosas por todo o país. Assim, a catástrofe do “SAEB Americano” não é uma metáfora distante, mas um retrato do futuro que aguarda a educação brasileira se o modelo paranaense, falsamente bem-sucedido nos índices, for exportado para o resto do país.

No plano institucional, o Estado do Paraná foi denunciado junto à OCDE, entidade responsável pelo PISA, por suas práticas ilegais e antiéticas. A denúncia, atualmente em análise, também foi compartilhada pela OCDE com o Ministério da Educação.

No plano político, a mobilização da sociedade se mostrou essencial no final de 2025 para impor uma nova derrota ao governo Ratinho Junior que insistiu na militarização e privatização de mais escolas, incluindo aquelas que anteriormente haviam rejeitado estes modelos. Desta nova investida, 13 escolas foram privatizadas, enquanto 33 foram militarizadas, boa parte delas por falta de quórum e não pela escolha da comunidade. No entanto, a luta das comunidades escolares se mostrou efetiva contra a máquina de desinformação estatal e impediu que outras 83 fossem privatizadas e 17 fossem militarizadas, impondo uma significativa derrota para o governador.