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Artigo

Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e Região rumo aos 90 anos de história, lutas e conquistas

Publicado: 06 Julho, 2021 - 00h00

O sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e Região está às vésperas de completar seus 89 anos de história. História essa que fora coroada de lutas e conquistas em prol da categoria bancária e por fim, nas três últimas décadas, também da categoria financiária.

Muitas estórias e história formam o arcabouço que cimenta essa bonita trajetória política de quase nove décadas, em que vamos testemunhar a construção sólida de uma entidade ímpar para a história política do estado do Paraná, de Curitiba e de sua região metropolitana, pois esteve sempre presente nos principais momentos políticos de enfrentamento de classe. Sim, nos momentos de enfrentamento classe, pois para além das lutas socioeconômicas, a categoria bancária sempre se entendeu como classe trabalhadora, pois compreende as bancárias, bancários, financiárias e financiários como cidadãs e cidadãos dos espaços públicos ondem habitam e atuam, por isso é fundamental que se lute para que nesses espaços também se conquiste melhoria de condições sociais e políticas para a vida das mulheres e homens, cidadãs e cidadãos.

Durantes essas décadas, todos os tipos de realidade foram enfrentados pela categoria bancária. E a vida nos ensinou durantes esses quase noventa longos anos que precisamos estar unidos e organizados para lutar e vencer os desafios colocados. Sem dúvida teve vários reveses, mas em essência a história política das lutas da categoria sempre foi vitoriosa, pois sempre procurou construir e forjar a unidade política da categoria, condição “sine qua non” para que se alcançasse os números de vitórias que foram alcançados.

Essa organização histórica sempre foi fruto de muita luta e empenho das mulheres e homens que se dispuseram a ser dirigentes sindicais na categoria, sempre abrindo mão dos momentos de conforto que poderiam ter em seus lares juntos aos seus, acompanhando mais de perto o desenvolvimento dos seus filhos e filhas, para poder construir a ladrilhada história de sucesso, garra, luta e determinação na defesa dos direitos da categoria, dirigentes aos quais imensamente agradecemos. Em momentos que o Brasil vivia períodos complicados da sua história política, como nas décadas de 30 e 40 do século passado, em que a tônica que prevalecia era a tônica do falar grosso, do patrimonialismo, do patriarcado machista, reacionário e conservador, que impedia a manifestação política e organizacional de uma forma mais efetiva da categoria bancária e menos ainda no que diz respeito à participação das mulheres na vida política e orgânica nos sindicatos. Isso sem falar na discriminação social, racial e religiosa que o período impunha, pois vivíamos um período de exceção política, estabelecida pela instituição do Estado Novo Varguista que buscava se aproximar das ideologias extremistas implementadas na Europa nos anos 30, que eram o fascismo de Mussolini na Itália e o nazismo de Hitler na Alemanha. Período triste da história da humanidade que infelizmente teve reflexos em muitos países do mundo, inclusive aqui no Brasil, que também produziu lideranças baseadas no caudilhismo político e que foram influências na política por décadas a fio, ou seja: influenciaram gerações com suas visões reacionárias e atrasadas de mundo. Isso só foi rompido tempos depois, com o realinhamento político dos países que compunham os Aliados − que foram fundamentais para derrotar o nazi-fascismo da época − contra o Eixo, composto pela Itália, Alemanha e Japão. Articulação que só fora possível porque entre os Aliados estava a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), quem de fato enfrentou as principais etapas da II Grande Guerra e foi também o país que teve a imensa maioria de mortes durante o conflito.

Depois desse período passamos a viver no Brasil sob a égide do trabalhismo, fundamental no nacional-desenvolvimentismo e que teve também à sua frente a política de Getúlio Vargas e posteriormente Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Leonel Brizola. Política interrompida pela decretação do golpe civil, militar e empresarial de 1964, que uma vez mais vai tentar colocar no ostracismo as entidades sindicais, dando à maioria delas uma atuação coordenada de prestação de serviços sociais e de saúde, deixando a ação sindical e luta socioeconômica em segundo plano, quando não, esquecida. Isto quando não havia intervenção militar direta para controlar as entidades, onde eram colocadas juntas governativas. O livro dos 80 anos do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e Região nos dá uma boa noção desse assunto. Essas intervenções acabavam com qualquer traço de democracia que vinha sendo construída a partir da promulgação de Constituição de 1946, que buscava enterrar as iniciativas fascistas que tentaram se organizar no Brasil.

Os anos de chumbo, como ficou conhecida a pior fase da ditadura no Brasil, não foram fáceis para a categoria, pois muitos dos dirigentes sindicais tinham sua formação altruísta de defesa da categoria e de seus direitos e conquistas, assim como também a defesa dos direitos do povo forjada dentro das concepções da esquerda marxista internacional, que influenciava mulheres e homens do mundo inteiro. Essa identificação com os Partidos de Esquerda, à época o Partido Comunista do Brasil – PCB, e o Partido Socialista Brasileiro − PSB, que havia se formado a partir da Esquerda Democrática, que tinham uma identidade com a atuação de muitos sindicalistas. A decretação do golpe civil e militar, colocou um número expressivo de dirigentes no ostracismo político, pois quando não estavam nas masmorras e nos porões da ditadura, eram obrigados a fugir do país, ou então ter suas atuações em ações e militâncias clandestinas de resistência política e enfrentamento à ditadura. E não foram poucos sindicalistas, bancários e de outras categorias, que tombaram na luta pela resistência democrática.

O Golpe que durou 21 anos teve seu fim com a volta de um presidente civil. A emenda Dante de Oliveira, que propunha Eleições Diretas já no ano de 1984, foi rejeitada pelo Congresso e a eleição do primeiro presidente civil após a ditadura se deu indiretamente pela câmara de deputado. Tancredo Neves foi eleito no colégio eleitoral. José Ribamar Sarney, que era vice em sua chapa assumiu após sua repentina morte. Essa luta política por democracia havia sido um árduo processo que se iniciou com pressão popular pela anistia política, que veio a partir de 1979 com as greves do ABC, capitaneadas pelos Sindicatos de Metalúrgicos do ABC Paulista que permitiu a volta e funcionamento dos partidos políticos, das Confederações, Federações e Sindicatos que estavam sob intervenção militar.

Calcado em bases que rompiam com o sindicalismo corporativista nasce o “Novo Sindicalismo”, que iria dar as condições ao surgimento da Central Única dos Trabalhadores − CUT, que fora fundada em 28 de agosto de 1983, no mesmo dia em que é comemorado o Dia Nacional da Categoria Bancária.

O Sindicalismo CUTista nasce com a cara do sindicalismo revolucionário, pois estava estabelecido num tripé de princípios que eram: O fim da cobrança do Imposto Sindical, pois entendiam que deveriam ser os próprios trabalhadores que, organizados, deveriam definir como custear o sindicato; contra a Unicidade Sindical, que estabelecia uma cartelização dos sindicatos, não deixando que as trabalhadoras e trabalhadores com autonomia e liberdade sindical definissem quem deveria representá-los; e contra o poder normativo da justiça do trabalho, ou seja, pela livre negociação entre os sindicatos e os patrões, instrumento que a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro − CONTRAF denominada na época de Confederação Nacional dos Bancários − CNB, consolidou em 1992, com a instituição de Convenção Coletiva Nacional dos Bancários, representando o conjunto da categoria bancária no Brasil inteiro. E que até os dias de hoje tem sido uma das mais importantes marcas da organização da categoria bancária e financiária CUTista Brasileira, que tem hoje mais de 90% das trabalhadoras e trabalhadores representados pela CONTRAF/CUT Brasil. Essa representatividade consolidou conquistas e benefícios, e a cada nova Campanha Nacional Salarial Unificada traz novos benefícios e conquistas para a categoria bancária e financiária.

A abertura política propiciou para o ano de 1986 uma eleição para a Câmara dos Deputados, com um caráter constituinte, que além de serem deputados, elaborariam uma nova Constituição, com a participação social e popular, ouvindo as trabalhadoras e trabalhadores, os movimentos sociais, a juventude e os partidos políticos recém-legalizados, enfim, a sociedade como um todo. Essa nova Constituição foi promulgada em 1988 e ficou conhecida como a Constituição Cidadã.

E a luta sindical ganhou outros contornos de participação das bancárias e bancários. Porém, o Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região somente iria se ligar ao campo bancário CUTista após as eleições da categoria em 1993, quando a chapa 1 – capitaneada pelo Movimento de Oposição Bancária, o MOB, venceu as eleições, elegendo o bancário do Banco do Estado do Paraná − Banestado, Roberto Antônio Von der Osten, o primeiro presidente ligado à CUT, e de lá para cá a seriedade e o compromisso político e organizativo do Sindicato com a base Bancária e Financiária de Curitiba e Região é reconhecida e respaldada pela categoria há quase três décadas.

Neste período que se segue, a partir de 1993, em que o movimento sindical bancário e financiário CUTista abrilhanta a cada ano a história política do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e Região, onde já foram presidentes em ordem cronológica, depois da primeira gestão da direção do sindicato capitaneada de 1993 a 1996, como dissemos por Roberto Antônio Von Der Osten; de 1996 a 1999 o Sindicato foi presidido pelo saudoso companheiro Pedro Eugênio Beneduzzi Leite, bancário da Caixa Econômica Federal, que infelizmente nos deixou há poucos meses; de 1999 a 2002 presidido por José Daniel Farias do Banestado; em 2002 houve um processo de disputa eleitoral em que foi eleita e depois reeleita como presidenta a companheira Marisa Stédile, que presidiu o sindicato de 2002 até 2008; de 2008 a 2014 o sindicato foi presidido por Otávio Dias, bancário do Bradesco; que de 2014 a 2021 foi sucedido por Elias Hennemann Jordão, também bancário do Bradesco, que a partir de 2021 elegeu seu sucessor, com mais de 94% dos votos válidos para um primeiro mandato, o bancário Antônio Luís Fermino, da Caixa Econômica Federal.

O artigo pretende regozijar a comemoração do aniversário de 89 anos do nosso combativo Sindicato de Bancários e Financiários de Curitiba e Região, mas não poderíamos deixar de abrir parênteses e destacar que a gestão da entidade capitaneada pelo companheiro Antônio Luís Fermino e toda sua direção, desde o início de sua gestão teve à frente uma das mais duras tarefas que uma gestão poderia enfrentar: uma pandemia mundial de Coronavírus (Covid-19) que se abateu sobre o mundo de uma forma sem precedentes na história. Mas a gestão segurou o rojão e, ao trabalhar em conjunto e coletivamente com as demais entidades da base da CONTRAF/CUT, fez que se conseguisse construir protocolos e acordos sanitários de proteção da categoria bancária, para evitar que a categoria fosse exposta de forma desnecessária a esse vírus, que infelizmente tem a colaboração do desgoverno Bolsonaro que geria a crise pandêmica de forma incompetente e desastrada, ou pelos, achamos que era isso, mas os últimos acontecimentos demonstraram a forma seletiva e corrupta desta condução evitou que todas as brasileiras e brasileiros já pudessem ter tido a vacinação, tão necessária para tentarmos voltar à normalidade e evitar mais mortes. Nossa atuação nacional viabilizou inclusive a inclusão de nossas categorias bancária e financiária na prioridade de vacinação. Diferentemente da política do desgoverno Federal que não priorizou a vida e a saúde do povo no combate à pandemia, felizmente nossos Sindicatos, Federações e a nossa Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro – CONTRAF/CUT colocaram a vida e os direitos das bancárias, bancários, financiárias e financiários em primeiro lugar. Fechando os parênteses.

Voltando a falar dos 89 anos do sindicato, efetivamente o dia 6 de julho abrirá oficialmente caminho para as atividades de comemorações dos 90 anos de existência do Sindicato. Momento em que, com certeza, surgirá espaço para que teses acadêmicas de diversos aspectos da organização sindical dos bancários e financiários de Curitiba e Região possam servir de objetos de estudo e destacar ainda mais o papel histórico, político, social e cidadão que o nosso sindicato teve durante essas quase 9 décadas de existência.

Quando surgiu em 6 de julho de 1932, o Sindicato representava, a partir de Curitiba, as bancárias e bancários do Estado inteiro e denominava-se Syndicato dos Bancários do Paraná. A partir do final dos anos 1950, quando se criaram novos Sindicatos de Bancários pelos munícipios e regiões do Paraná, dando condições para que se formasse uma federação estadual para representar a categoria, isso mudou a jurisdição: nossa representação passou a ser a cidade de Curitiba e a sua região Metropolitana; a partir daí passou a denominar-se Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região. A partir da nova configuração dos ramos de atividade no Brasil, o Sindicato altera novamente sua razão social para representar todas as trabalhadoras e trabalhadores do Ramo Financeiro de Curitiba e região metropolitana, chamando-se Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e Região.

Viva o Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e Região e seus 89 anos de lutas, história e conquistas! Que venha o futuro, pois temos ainda muito a oferecer à luta e à organização das trabalhadoras e trabalhadores do Ramo Financeiro.

Marcio Kieller é Bancário do Itaú, Presidente da CUT/Paraná, mestre Em Sociologia Política Pela Universidade Federal do Paraná – UFPR e dirigente da FETEC/CUTPR