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Manifesto em Curitiba reúne pessoas em situação de rua, esse lugar de ninguém

Publicado: 07 Junho, 2019 - 08h49

Escrito por: Paula Zarth Padilha com fotos de Gibran Mendes

Gibran Mendes
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Entre as cerca de 80 pessoas em situação de rua que percorriam o trajeto entre a Praça Tiradentes, marco zero de Curitiba, e a Prefeitura da cidade, no Centro Cívico, caminhavam de mãos dadas o casal Margarete, 62 anos, e João, 66. Eles moram nas calçadas da rodoviária da capital paranaense há seis meses, de onde saíram e depois voltaram em busca de emprego.

Margarete contou que já trabalho como camareira e auxiliar de limpeza mas que atualmente ela e o companheiro sobrevivem de boas ações de organizações não governamentais que proporcionam acesso a alimentação, banho e roupa limpa.

“Bolsonaro não gosta de pobre, assim como nosso prefeito, que não gosta de pobre”, declarou no microfone Leonildo Monteiro, liderança do Movimento da População de Rua, uma das entidades que organizou um ato em Curitiba, na manhã desta quinta-feira, 06 de junho, em frente à Catedral, chamado "Rango com Rafael Greca", em alusão ao prefeito. Ele anunciava que em breve os moradores de rua poderão ir a Brasília se manifestar contra os cortes no Bolsa Família, que é a única verba financeira que a maioria dessas pessoas em situação de rua recebe.

“Tudo é movido por dinheiro”, disse Valdineia, 36 anos, ao lado do companheiro Paulo. Eles moram nas ruas de Curitiba há um ano e meio, cada dia em um lugar, decidem na hora de se acomodar. Sua única subsistência é o Bolsa Família, que recebe porque tem duas filhas. Valdineia já trabalhou em mercado e restaurante mas disse que teve que sair dos empregos por conta de crises convulsivas. Para ela, o pior de ser uma pessoa em situação de rua é o frio. Ela almeja ter casa, alguma renda e lazer. A sobrevivência é possibilitada pelos poucos pertences materiais, as cobertas e roupas. Quase ninguém menciona ter colchão para dormir.


O auxílio solidário vem de entidades que ofertam comida e acesso a higiene pessoal, entre ela a Casa de Acolhida São José, que funciona desde 2012 na Rua Paula Gomes e tem cerca de 2 mil pessoas cadastradas pela assistência social. A Casa tem como mantenedora uma congregação católica. Nesta manhã, as irmãs Janete e Ileusa serviram o café da manhã aos moradores de rua que estavam no protesto. Irmã Ileusa conta que faz suas ações “pelo testemunho, com afeto e acolhimento”. Ela diz que conhece as pessoas que frequentam a casa e chama todos pelo nome “porque eles se sentem pessoas”. Ela conta que as refeições têm momentos de oração em agradecimento.

A assistente social Eliane, da Casa de Acolhida, explica que em 2019 a entidade teve um aumento significativo de procura de pessoas com necessidades básicas, de pessoas que sentem fome, que reviram o lixo em busca de comida, de famílias inteiras morando nas ruas, ou que buscam emprego. E que a instituição acolhe a partir dos 18 anos, ofertando café da manhã, banho, higiene e auxílio técnico e jurídico, sem qualquer recurso público. “É parte do nosso plano incidir em políticas públicas”, explica. 

Para Fernando, que há sete anos está nas ruas de Curitiba, sua condição representa “não ter acesso a necessidades básicas que as autoridades não conseguem te proporcionar”. Ele conta que nesse tempo, havia uma época em que a população de rua se reunia para a prática do muay thai, ensinado por um professor que também foi parar nas ruas. Explica que não dorme em pontos fixos da cidade e que geralmente está acompanhado de cinco ou seis outras pessoas, mas que existe uma rotatividade entre seus colegas que andam junto com ele. “A gente conhece todo mundo e quem não conhece, passa a conhecer”. Ele estava na manifestação para tentar ajudar o pessoal, mudar a história, mudar a desigualdade. Fernando acredita que o mundo “está precisando de mais pessoas solidárias, que ajudem em situações extremas, pela realidade, pela convivência, e não pela vestimenta”.  

Ana Paula, 41 anos, saiu da casa dos pais há seis anos e foi para as ruas acompanhar seu ex-marido, já falecido. Ela permaneceu porque a rua lhe proporciona acolhimento por sua condição de viciada em álcool. Bonita, vaidosa, disse que dorme com seu atual companheiro em um lugar fixo e que seus pertences são cobertas. Bastante cobertas. Contou que soube de outras manifestações mas que essa é a primeira que participa. “Eu quero falar o que é estar nas ruas. A rua não é para ninguém, não é para ser humano”, sentencia. 

A manifestação das pessoas em situação de rua contou com a presença de representantes de entidades associativas e sindicais ligadas aos direitos humanos, como a presença de uma representante da CDH da Ordem dos Advogados do Brasil, que acompanha atos de rua para observar o respeito e mediar conflitos se necessário, e de movimentos sociais organizados. Também estavam presentes os mandatos da vereadora Professora Josete (PT), e dos deputados estaduais Tadeu Veneri (PT) e Goura (PDT), que compareceu. Um primeiro resultado foi a Prefeitura receber uma comissão, com a participação da sociedade civil organizada, para recebimento de um manifesto. 

O ato teve microfone aberto, poucos falaram, mas quem se manifestou queria saber se o prefeito faria alguma coisa. Em 2018, eram somente 197 vagas de acolhimento. O Movimento da População de Rua estima entre 5 mil e 6 mil pessoas morando nas ruas em Curitiba na atual conjuntura. Os últimos dados oficiais são de 2015, divulgados pela Fundação de Ação Social, estimando em 1.715 pessoas.

Em 2019, três pessoas em situação de rua foram assassinadas na capital paranaense, carbonizados ou por tiro. E os ataques são diários. Leonildo, do MNPR, denunciou que diariamente as pessoas em situação de rua são acordadas por guardas municipais, e não por assistentes sociais, aos chutes, em seus papelões, debaixo de marquises ou viadutos. O ato terminou com a distribuição de almoço.

 

Por Paula Zarth Padilha
Fotos: Gibran Mendes